Manezinho

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Todos os dias, ele buscava algo. Não sabia o que era, mas não desistia. Pensou que fosse o amor. Quando o encontrou, viu que não era. Depois acreditou que o que lhe faltava era descobrir o significado da vida, teve filhos e o significado da vida não teve mais tanta importância assim.

Então, num acaso ele perdeu a sua família, foi roubado, traído, abandonado e esquecido e decidiu pôr a culpa em Deus. Um Deus do qual ele nunca cobrou nada.

Num dia frio, ele olhou para o céu. Deus, por quê? Deus, o Senhor me vê, me ouve, sabe que eu existo? Eu estou cansado, perdido, morto de tudo…. Eu vejo os seus filhos te adorando e nunca entendi. Por que tanta devoção se o Senhor quase não os ouve? Se nem sempre a tal paz chega, se nem sempre o milagre acontece. Deixe-me entender essa fé. Deixe-me provar desse amor.

Solano vivia nas ruas depois que foi vendido e entregue por seu “amigo” à polícia. Preso por algo que ele não fez. Acusado de uma mentira suja, mas que o pegou e que o levou ao fim. Ter perdido a família inteira num acidente já o havia destruído, mesmo assim todos acharam que ele era o pior, e o pior é que nada fazia sentido. Na prisão, leu o livro de Jó. Como acreditar no diabo se ele não conhecia Deus? Como perdoar um Deus que lhe tira tudo e o deixa assim, um trapo solto na sarjeta, alimentando-se do pouco que sobra das migalhas? As palavras carinho, paz, amor, perdão, alegria não eram mais entendidas, um estrangeiro analfabeto perdido num livro onde não há figuras.

Numa tarde, Solano se protegia da chuva na marquise de uma igreja. Quando a água bateu em seu rosto ele gritou “Meu Deus”. E um cão veio lamber seu rosto, e ele amou aquele cão, pois há muito tempo ele não sentia o calor de uma criatura. “Obrigado, eu bem que precisava de um carinho”. E fez uma carícia nos pelos machucados do cão, que foi ficando perto, que foi ficando com ele, que foi ficando nele, colado, misturado, amando Solano com o calor do corpo, com os poucos pelos, dividindo a fome e a dor da existência. Sendo um para o outro o que o outro lhe bastava. Solano dividia o pouco de comida que ganhava com o cão. E o cão lhe trazia o que conseguia.

Numa noite o cão se distanciou, ficou minutos longe de Solano, muitos minutos. A preocupação fez o coração apertar, não era possível perder tudo novamente. Lembrou-se de Deus e repetiu as palavras que disse quando o cão apareceu, “Meu Deus”, como se elas fossem palavras mágicas, mas o cão não apareceu. Solano passou a noite preocupado. Tentou dormir, mas não foi possível. Solano pensou em se matar. Só então ele orou:

– Senhor por que é que eu tenho que ser Jó? Já não basta tudo o que eu passei, tenho que conviver com essa dor, tenho que suportar além do que eu não posso; desejar a morte quase todo dia, cansado, doente…? Senhor traz de volta o meu cachorro. Traz de volta o meu amigo.

Mas naquela noite nada aconteceu, nem na outra. Solano quase se matou.

Numa noite fria, algumas pessoas vieram lhe trazer sopa quente. Ele comia sem dizer uma única palavra. De dentro de um carro, ele viu um cachorro. Ele se levantou e o cão latiu balançando o rabo com aflição. Solano gritou:

– Amigão é você? É você! Está tão bonito!

A porta foi aberta e o cão fez a maior festa.

– Nossa como você está cheiroso. Cuidaram bem de você, não foi?

Os dois não se contiveram, choraram abraçados Solano e o cão.

Uma garotinha saiu do carro.

– Moço, esse cachorro é meu. Pegamos ele na rua e cuidamos dele.

Solano a olhou sério. Olhou para o cachorro e chorou.

– Tá certo. É melhor ele ir com você. A rua não é vida pra ninguém, pra nada. Só os ratos e as baratas gostam da rua.  – As lágrimas escorrendo dos olhos. A garotinha chorou e quem estava perto chorou também.

– Vai com eles Manezinho. Vai com eles que é melhor. – E foi para debaixo da marquise, o cão foi atrás e sentou ao lado dele, feliz da vida. A garotinha olhou para mãe, a mãe se abaixou falou ao seu ouvido e se foram.

Horas depois, outro carro volta. Um senhor tenta conversar com Solano, que explica que o cão que quis ficar. Solano, relutante, nem ouvia direito. O cão latiu e só assim ele prestou atenção no homem.

– Você tem toda razão, Solano, a rua não é lugar para ninguém. Venha comigo que eu posso te arrumar uma casa e até um trabalho.

Solano olhou desconfiado.

– E o Manezinho?

– Ele é a sua família, não é?

Solano olhou para o cão que lhe lambeu o rosto.

– Só tenho ele.

– Então… Bora pra casa, Solano.

Solano riu e chorou e entrou no carro.

– Qual o seu nome moço?

– Meu nome é Macarrão

– E o que você faz?

– Eu só faço o que Deus me manda fazer.

-Deus mandou você me buscar?

– Mandou, você e o seu cachorro.

E Solano creu em Deus, num Deus que ele ainda não conhecia.

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2 respostas a Manezinho

  1. Gerson diz:

    Mano, essa foi uma das suas melhores histórias. Viajei. Senti a afiliação e a alegria de Solano e seu cão. Manda mais.

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