Hipo

Toda segunda-feira era igual. Reunião de oração na sala dos diáconos, sempre às 07:00 em ponto. Irmã Lurdes nunca se atrasava. Com a Bíblia na mão às 07:02 a pergunta: Posso começar? E não esperava a resposta. Vamos abrir nossas Bíblias… Pronto, quem estava acompanhava e lia. Depois levava uma palavrinha, como ela mesma gostava de dizer. Aproximadamente 45 minutos. Terminada a “palavrinha”, ela abria para orações, pedidos, agradecimentos e o que mais e quem mais quisesse.

O primeiro a falar foi o irmão Gustavo.

– Eu queria agradecer a Deus por que ontem eu consegui dar entrada num carro novo. Esse carro vai ser uma benção, eu vou poder abençoar muitas pessoas.

Todos deram glória a Deus e o irmão Gustavo quase chorou.

Depois foi a irmã Patrícia.

– Eu quero dar um testemunho. Ontem eu preguei para uma amiga do meu trabalho. Ela é uma desviada. Eu nem gosto de falar no que ela crê. Mas eu consegui falar de Jesus para ela. Eu fiquei muito feliz.

Novamente uma série de améns e glórias a Deus que quase culminaram em aplausos.

E assim foi. Os irmãozinhos orando, dando seus testemunhos… E quando já estavam quase dando por encerrada a reunião, um jovem levantou a mão e perguntou. Eu posso pedir uma oração?

Irmã Lurdes estranhou. Quem era aquele? Tinha visto muito pouco na igreja. Lembrava dele sem querer.

– Claro que pode… ééé…

– Manuel, meu nome é Manuel.

– É rápido, não é Manuel?

– É, vai ser rápido sim. – Eu tenho um problema e queria pedir para os irmãos para orarem por mim. Eu sou viciado em pornografia.

Fez-se um silêncio. As palavras de Manuel eram como um vômito enorme no meio da sala. Como se alguém despejasse um lixo, há muito apodrecido, no meio de uma loja de perfumes. E ele continuou.

– Eu tenho pensamentos sexuais com muitas mulheres, e até com homens, e não são desejos normais, são perversos, quero chicoteá-los, maltratar a todos, minha mente me leva para lugares horríveis. Eu sei que Deus detesta isso. Eu me masturbo muito, muitas vezes ao dia. Eu preciso parar. Ontem eu tive vontade de roubar vinte reais. Eu vi um menino comprando um doce e pensei como seria fácil tomar da mão dele.

Todos estavam estupefatos. Podiam jurar que da boca de Manuel saía um líquido esverdeado e seu rosto se distorceu e ficou cheio de rugas e feridas e tinha um cheiro de podridão que se espalhava pelo ar e causava náuseas.

Lurdes com os olhos arregalados olhava para o nada, não conseguia encarar ninguém. A maioria estava sem saber o que fazer. Até que seu Pedro soltou um sonoro “Obrigado”.

– Obrigado, Manuel, por sua coragem. Eu vou te ajudar, vou dizer a minha verdade. Eu devia estar na prisão, tanto que eu já fraudei as minhas notas fiscais, todo o dinheiro que tenho, gasg, gasg, arghhhhttt. – Seu Pedro não conseguia mais falar, seus dentes começaram a crescer ele sentiu uma enorme aflição, levou as mãos para trás da cabeça e com um grito ele arrancou o próprio rosto. Pelo menos essa foi a impressão que todos tiveram, mas não, o rosto de seu Pedro estava lá, amassado, disforme, com dentes grandes e tortos, os lábios roxos e babando. – Assim eu consigo falar. Todo o dinheiro que eu tenho eu deveria devolver aos meus clientes, pelo menos a maioria. Eu já traí a minha esposa e nem me importo. É bom poder respirar sem isso.

Dona Matilde levantou a mão. – Eu tenho desejos pelo meu vizinho e inveja da mulher dele. – E com um grito sua cara caiu. Dona Matilde tinha feridas pela pele e delas escorriam um pus rosado, muito fedorento, com pelos grossos por todo o rosto e seu nariz era torto e todo enrugado. – Eu não suporto metade das pessoas dessa igreja, de algumas tenho nojo e nem sei porque. Odeio os pobres, os negros, os índios, os mulatos, toda essa gentinha que enche o nosso país. Ai, como é bom tirar essa falsidade e poder falar tudo isso.

E assim foi, um após outro, deixando cair a mentira, se mostrando, monstros horríveis, pessoas com áreas secretas no coração.

Todos falavam e sorriam, a reunião começou a parecer uma festa. Todos tinham tirado um peso da alma, estavam alegres, se sentiam melhores.

Manuel propôs uma oração. Todos deram as mãos e ficaram em um circulo. – Senhor que o mundo saiba quem somos, que nenhum de nós use máscaras, que sejamos as criaturas as quais o Senhor planejou. Ajuda-nos a sermos livres do pecado, a confessar a ti nossa dor e o peso dessa luta. Que nossa máscara caia e não volte, e que estejamos a seus pés, assim como somos, para que o Senhor nos transforme, nos cure e nos dê a eternidade da verdade e do céu.

Dona Lurdes olhou para Manuel e todos se olharam. A reunião tinha acabado. Um silêncio reinou. Dona Lurdes se abaixou, olhou fixamente para a máscara, colocou-a sobre o rosto facilmente, e todos, depois dela, fizeram o mesmo, menos Manuel. Esse decidiu sair como estava e era como se o Próprio Jesus Cristo tivesse feito um carinho em seu rosto terrível, sujo e amargo, mas que já começava a se curar.

 

Rêmulo Vaney Carrozzi

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5 respostas a Hipo

  1. Gerson Pereira Rodela diz:

    Assim como é impossível separar o joio do trigo, uma igreja com máscaras, que escondem nossas mazelas, será um fato que acompanhará a história da igreja até o fim dos tempos. Mas admiro aqueles que tem a coragem de abrir seus corações secretos repletos de sujeiras. Aliás, se temos coragem pra pecar temos que ter ainda mais coragem para confessar.

  2. Millena Tranquilino dos Santos diz:

    Adorei

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