Na Lapela

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Aqui sempre faz muito calor. Quase nunca chove, é sempre quente, sempre seco, árido e vazio. Quase nunca se vê água. O que me faz forte. Obriga-me a criar raízes poderosas nesta terra seca, terra dura. Nada! Quase nada, se tira dela, assim como alguns corações. É preciso ir fundo, cavoucar profundamente para encontrar, se encontrar, alguma coisa que me ajude. Um pouco de umidade, uma substância boa que me dê forças.

Às vezes venta e é bom, mas às vezes o vento é quente e cheio de uma areia seca. E sempre esse sol. Sol que não descansa. Sol que não pisca. Sol que tanto me ama. Sol que quase me mata. Sol que me mantém viva. Sol que me castiga e, à noite, me abandona, me deixa no frio. Como faz frio à noite! Frio pior que o sol.

Como eu ainda resisto? Por quê?

Da última vez que choveu, não foi bom. Choveu muito e essa terra dura não absorveu tudo. Eu quase me afoguei. Fiquei encharcada. Não fosse o sol – esse sol – acho que eu teria morrido. Sempre aqui. Sempre só. Bem que por aqui podiam passar pessoas. Uma criança, seria lindo. Ela me acharia linda. Talvez até me levasse com ela. Não me importaria morrer assim, nas mãos de uma criança. Ou servir de agrado, um gesto simples e doce. Passar de uma mão para outra, ver dentes, lábios se abrindo, palavras bonitas, eu te amo, eu te quero, quem sabe até poesia, rimas, canções…

Sinto falta dos insetos. Amos os insetos. Minhas cores são para eles. Mas aqui, fico dias, semanas sem vê-los. Uma pena. Às vezes sonho com abelhas, que falta me fazem as abelhas! E os pássaros então? De alguns tenho medo, mas os pássaros me fazem bem. Gosto dos pequenos e rápidos; são tão carinhosos, me beijam tanto, mas são raros por aqui. Eu só vejo os grandes que passam longe, nem sabem que eu existo. Quem sabe que eu existo?

Eu nascer aqui já foi um milagre. Milagre eu ainda estar viva, suportar isso tudo. Eu sei que existe um lugar melhor, eu sinto. Onde fica esse lugar? Um lugar de brisa fresca, de terra escura, úmida, terra cheia de nutrientes, terra com minhocas, terra cheirosa. Um lugar onde se aviste, por todos os lados, o verde, se sintam cheiros, ervas, perfumes, a grama forte me protegendo, um lugar cheio de cores. Um lugar que sempre chove, chuva boa, e o sol – esse sol – que é tão firme. E, quando tudo estiver quente, vem uma brisa fresca e então cai uma garoa e eu lentamente fico úmida, de leve, como o orvalho. Ah, o orvalho! Que lindo deve ser acordar com o orvalho. Que lindo deve ser esse lugar. Será que existe um lugar assim? Será que pode existir um lugar melhor que esse? Melhor lugar para se estar? Melhor lugar para sonhar viver?

Uma nuvem!? Que bom! Um descanso. Chuva!? Chuva. Meu Deus, meu Criador… Um respiro, um alento. Um homem? Vem até mim. Sandálias gastas. Meu Deus! Meu Deus! É Ele. Meu Deus! Meu Criador! É Ele? Ele se abaixa. Senhor! Ele me vê, me cheira, me toca. As suas mãos estão feridas, suas duas mãos estão feridas. Seus pés também estão feridos. Meu Pai! Ele me agarra, me arranca dessa terra seca, que não me segura, essa terra não pode me deter, nunca pôde. Ele me ajeita em sua roupa, e me prende nela. Sim há um lugar melhor. E eu fico por toda a eternidade.

Rêmulo Vaney Carrozzi

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