Este Mundo

Era a primeira entrevista de emprego depois de 14 meses parado. Um misto de euforia, medo e esperança lhe faziam tremer.

– Ainda bem que meu irmão me emprestou o sapato novo dele. E seu pai a calça. Nunca gostei de calças sociais. – Falou enquanto arrumava o cinto.

– Está vendo? As coisas estão acontecendo, eu sabia que Deus daria um jeito. –  Disse sua esposa.

– Pelo menos não precisei pedir a camisa emprestada. E abotoou o último botão.

– Ainda bem que esta ficou boa. Mas o sapato está largo.

– Coloque mais uma meia, amor. – Disse a mulher, olhando para o marido.

Ele colocou.

– Ainda não está bom. – Falou, batendo o pé no chão.

– Mas acho que já dá. Dê uns passos.

Ele andou um pouco pelo quarto. A esposa olhou e deu um sorrisinho.

– Só não vou poder sair correndo. – Ele afirmou com um sorriso largo.

– E você planeja correr de quem? – Ela indagou.

– Nunca se sabe… De um cachorro, da polícia, mulheres… – E soltou um sorriso largo.

– Mulheres, mostre a carteira pra elas que elas vão correr é de você! – E olhou séria para ele.

– Também não precisa humilhar, né?!

A mulher o olhou, de alto a baixo, foi até ele e lhe deu um abraço. Tudo vai melhorar, me desculpe. Estou com você, você sabe.

Os dois sentiram vontade de chorar, mas não havia mais lágrimas, nem dinheiro, nem autoestima, só um pouquinho de amor e de esperança, mais esperança que amor.

Depois de quase duas horas a recepcionista chamou:

– Francisco Souza, sala quatro, por favor.

Ele agradeceu, caminhou tremendo até a sala, a moça do RH o esperava, sorriu para ele com seu currículo na mão.

Depois de dez minutos de conversa ela o olhou nos olhos e disse, como alguém que atira numa pessoa de mãos amarradas e que lhe olha:

– Me desculpe Francisco, mas o senhor não se enquadra nas necessidades da nossa empresa. Obrigado por ter vindo.

– Mas… – Tentou argumentar e ouviu:

– A saída é por ali, obrigado.

Foi difícil sair da cadeira, não era só o mundo que estava em suas costas, era o fracasso, era o olhar da mulher lhe chamando de inútil, era a dor do estomago vazio, eram as contas todas, era o mundo dele pesado e oco. Quis gritar, voltar a sentar a mão na cara da psicóloga pela grosseria, por não poder falar, por não poder nem chorar. Saiu lentamente olhando os malditos sapatos largos, que nem eram dele.

Passou em frente a um mercado, tinha uns poucos trocados no bolso. Melhor comer alguma coisa, um pão pelo menos. Entrou e olhou as tantas coisas das prateleiras, tanta coisa boa, queria encher um carrinho e levar pra casa. Despejar na mulher uma caixa de bombons e lhe amar de verdade, como ela não deixava há meses e ele não conseguia há semanas.

Num dos corredores um senhor chamava a atenção de um rapaz, uma bronca feia, com dedo na cara e voz de bandido. Ele passou e olhou, o rapaz ergueu os olhos e seus olhares se cruzaram. Preferia estar tomando uma bronca dessas e estar trabalhando do que como agora. Com dinheiro para um pão apenas, um pão sabor fracasso. Pensou, seguindo para a área dos pães. Pediu um pão francês dos menores e uma água que custasse menos de um real, para que pudesse matar a fome, a sede e não voltar a pé para a casa.

Sem querer esbarrou no rapaz que tomou aquela bronca, e estava abaixado arrumando uns refrescos.

– Qual foi o bacana?! – Disse erguendo a voz e o empurrando. – Acha que só porque está todo bem vestido, de sapatinho brilhante pode ir pisando nos outros? Eu sou pobre mas sou gente, você não tem o direito de fazer isso não!! Tá pensado o quê?!!

Ele não sabia o que fazer, pensou ser algum tipo de brincadeira do rapaz, ele nem sentiu o esbarrão, quase não o tocou. Olhava pasmo.

– Que foi?! – Continuou agressivo, armando um soco. – Acha que eu não tenho coragem de quebrar a sua cara?!

Sentiu um fogo lhe subir no peito, olhou no olho daquele idiota e fechou a mão. Melhor, era só imaginar o rosto da psicóloga e descontar tudo neste bosta, melhor ainda, ir para a cadeia e imaginar a cara da mulher, mandar tudo pelos ares, não era muito mesmo, só migalhas de uma vida, uma camisa que o enfeitava.

Seguiu-se um silêncio, uns segundos apenas, respirou fundo. Ele ouviu uma voz, que não era a dele, lhe dizer “Não”. Sentiu calma, mais silêncio e ele desfez o soco, o rapaz não.

– Olha me desculpe, eu não o vi, não quis ofender você, por favor, me perdoe. – Ele falou com a voz trêmula, como alguém que devolve aquilo que não roubou.

– Não é só porque eu tenho esse trabalho humilde, que gente como o senhor pode fazer isso, faz que a gente é invisível, pisa na gente. – O rapaz um pouco mais calmo, de mãos abertas.

– Você está muito enganado, não sabe nada. Eu…

– Olha aí, já tá me chamando de ignorante, bradou interrompendo.

Qual o problema aqui? O homem que havia dado a bronca no rapaz perguntava.

– É… Seu Osmar. Nada não. Eu esbarrei nesse moço e estava me desculpando com ele. O rapaz era outro. – A voz cheia de medo.

– Felipe, eu sabia que você iria aprontar. Me desculpe senhor, eu vou cuidar deste incompetente, já para o RH. – Apontou para o rapaz que arregalou os olhos. Seu medo cheirava no ar.

– Por favor, na faça isso, eu esbarrei neste moço sem querer e ele muito humildemente se desculpou comigo.

– Ok, dessa vez passa, Felipe, mas estou de olho em você.

O rapaz se virou para a prateleira e começou a arrumar as mercadorias. E ele ficou lá parado, segurando seu pão e sua água, deu uma volta no mercado, meio sem rumo, pagou e foi embora, bebeu a água e sentiu o sal de suas lágrimas temperar o pão.

 

Rêmulo Vaney Carrozzi.

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