Conhecimento

Era para ser só mais uma reunião de oração, uma conversa simples sobre os amigos, os problemas e a fé. Mas, no meio da noite, perguntas sobre a Bíblia, sobre crenças, sobre os homens, sobre teologia e mais outros assuntos foram tomando conta das questões e a vaidade se fez presente sem que as pessoas a notassem. E as palavras delicadas do início do encontro agora eram um pouco mais duras. Até que um deles se revelou. Ergueu-se, bateu no peito e disparou:

 – Eu conheço a Palavra e a conheço bem. Li a Bíblia diversas vezes, fiz estudos sobre essas leituras todas. E posso afirmar o conhecimento da palavra é tudo!

Um outro “orador” não quis ficar calado; colocou-se em pé e respondeu:

– Pois eu conheço a Palavra e também as ideias que a combatem. Conheço sobre as outras religiões, sobre outras crenças e seitas e dogmas. E li a Palavra, li não, leio todo dia, todo dia!

E mais um se levantou.

– Eu conheço os textos sagrados. Eu li sobre tudo, sobre o mundo, sobre o que pensa o homem, sobre o universo e seus mistérios. Li sobre os dogmas das mais diversas confissões cristãs. Li a Encíclica Papal, a Torá e o Alcorão. Sei de cor textos importantíssimos e longos, alguns muito longos. E posso afirmar: a fé não se faz sem o conhecimento e é no conhecimento que a fé se prova.

E, assim como estava, a reunião seguiu. Textos, dogmas e o conhecimento. Às vezes parecia que iria esquentar, mas como eram todos sábios…

Até que notaram seu Adelino, quieto, falando muito pouco, quase sem se notar, e, estranhamente, a atenção foi direcionada a ele.

– E o senhor, seu Adelino, estudou muito? Conhece os mistérios do universo? – Um dos “oradores” disse com um sorriso cheio de si.

Seu Adelino tomou um breve gole de água. Pôs o copo sobe a mesa, pegou a Bíblia surrada, remendada, marcada, colocou-a em seu colo com carinho e disse:

– Meu filho, eu não estudei muito a Bíblia, não. Eu a leio todo dia, mas eu também posso lhe dizer que eu conheço a dor, eu conheço a fome de quando eu era menino, eu conheço a esperança e o desespero. Mas o que eu posso afirmar com mais certeza é de conhecer muito bem o Pai. E Ele me conhece melhor do que eu. E, por esse Pai que eu tenho, eu conheci duas pessoas especiais, que acho que não sabiam tanto assim sobre o mundo nem o universo, mas eles me conheciam bem, conheciam minha fome, minha dor quando perdi meu pai, e minha mãe que não tinha como alimentar seus oito filhos. Padre Leonardo conhecia meus oito irmãos pelo nome, conhecia os vizinhos com histórias parecidas, conhecia todo o sofrimento da pobre comunidade onde eu vivi. Ele conhecia o Pai pelo amor que tinha por mim e pelos necessitados que ajudou lá no sertão. E eu conheço o irmão Carmelo, acho que o irmão Carmelo não conhece tanto sobre o universo, sobre planetas e Homens da história, mas o irmão Carmelo conhece muitos mendigos, muitos viciados, muitas prostitutas e gente que conhece o Pai como os senhores conhecem. E eu espero temer a Deus o suficiente a ponto de conhecer melhor a Dona Cleusa, da minha rua, e seus quatro filhos, e possa conhecer melhor a sua dor e ajudá-la a achar uma clínica, uma cura para aplacar a sua dor.

Depois das palavras de seu Adelino, os ânimos eram outros. Um dos sábios se levantou e disse:

– Seu Adelino, concordo com o senhor, mas os estudos nos guiam na direção da história e na busca de um mundo mais justo. Pois o conhecimento do Amor do Pai vai nos salvar.

– Mas o que ficará no fim de tudo meu filho? Perguntou seu Adelino.

– O Amor irmão, o amor não passará. Ficará o Amor de nosso Deus.

– O conhecimento vai passar. As línguas e profecias também e…

Os outros oradores começaram a colocar pontos de vista e a citar passagens da Bíblia e a erguer o tom de voz.

Seu Adelino Tomou mais um gole de água, descansou a sua velha Bíblia sobre a mesa e ficou ouvindo seus irmãos enquanto eles desfiavam conhecimento.

Rêmulo Vaney Carrozzi

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O Tempo de um Beijo

Quando ele nasceu, o tempo já não era o tempo. O amor era outra coisa e a vida acontecia em segundos. Seus olhos mentiam sempre, mas a voz era doce. Talvez por isso as pessoas ainda acreditavam nele. Mas não era só isso, o que ele mais queria era ser amado, amado de um jeito qualquer, amado como nos livros, como nos filmes, mesmo que durasse o tempo interminável de um beijo.

Então ele fugiu, escapou do tempo e ganhou asas, dessas que só os anjos e os pássaros conseguem. Assas douradas, brilhando como a luz do sol. Tão impossível de se ver que doía.

Um dia, voava além das montanhas, além das nuvens, além do céu e, ao longe, viu uma luz como a dele. “É ela!”, pensou, e bateu as suas asas o mais rápido possível. Mas a luz voava rápido, muito mais que ele. E ele a perdeu.

Triste e só, fez um ninho no alto de uma montanha e lá ficou. Esperando que suas asas caíssem, mas elas ficavam mais fortes, e cresciam.

No dia que olhou para o céu, no dia da mais linda tempestade, ele viu, entre as nuvens, raios e estrelas, a luz. Disparou até ela. Conseguiu vê-la. Eram asas brancas reluzentes, de beleza sem igual.

Entre as nuvens, desviando de raios, voando como o vento, ele a alcançou. Tocou em suas asas e ela parou. Trombaram. Olharam-se, observando a beleza um do outro, e esperando. Ela sorriu, e ele, sem pensar, a beijou. E, quando seus lábios descolaram, ele perdeu as asas. E despencou do alto do céu, dentro da tempestade. Nada mais importava. Feliz, ao cair do céu, viu raios, cortou nuvens, conheceu as lágrimas e chegou ao chão. Sem asas, passou a caminhar, sempre olhando para o céu.

Ventos depois, a luz desceu até ele. Era ela, linda. De asas brancas.

– Por que você foi embora? Ela perguntou com olhos úmidos.

– Minhas asas me abandonaram. Não posso mais voar.

– O que foi aquilo que você fez em minha boca?

– Foi amor. Naquele dia, eu lhe dei a verdade.

– Por isso suas asas caíram.

– Talvez.

E ela o beijou, esperando que as asas crescessem novamente. Mas nem as dela caíram.

De uma brisa nasceu um vento forte. E numa ventania ela se foi.

Ele ainda olha todo o dia para o céu.

Mas o que ele nunca percebeu, é que as asas não lhe faziam falta.

E um dia, cansado de esperar e de olhar para o alto, ele voou, mesmo sem asas.

Rêmulo Vaney Carrozzi

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O Leão e a Mariposa

Encontrou a porta aberta e entrou. Sentou-se no último banco, o primeiro que estava vazio, o mais escondido. Lá ficou por um tempo, um bom tempo. O corpo, que não era dela, nunca foi, doía inteiro. Seu rosto ainda ardia. Os tapas foram fortes. Suas coxas ainda estavam marcadas, vermelhas, em alguns lugares, quase roxas. Suja, sentia vergonha, medo, dor, frustração, angustia, ódio, tédio. Havia chegado ao fim e continuou depois dele, descendo e indo mais fundo, muito mais fundo. Chegou ao inferno. E não havia como sair dele.

Toda noite era um estupro. Nunca era fácil. Nunca era simples.Sempre era ruim. Todas as noites o inferno. E o dinheiro que ganhava era amargo, de nada servia, de nada adiantava. Algumas meninas diziam que gostavam, ela nunca acreditou. Sempre a náusea, a dor e o sofrimento no prazer dos outros, os escrotos e cruéis clientes. Clientes do inferno, ao inferno.

Inferno que conhecia bem, vivia nele. O céu era apenas uma propaganda na televisão. Inalcançável desejo. Paz. Casa própria, geladeira, móveis e é claro um marido, mas esse ela não queria mais, basta de homens. Teve homens demais pra essa vida. Largada, vendida, abandonada, surrada, esquecida, maltratada. Amada? Bastava estar só. O mundo seria o céu se estivesse só. Mas a fome era muita, a sina de perder tudo o que nunca teve. O medo do dono, da morte, o medo do medo, maior que a dor, que só não era maior que Deus. Um Deus que ela esqueceu, ou que se esqueceu dela, como ela dizia, como ela pensava, como ela sofria.

As luzes começaram a se apagar, só algumas poucas ficaram acessas, ninguém veio falar para ela sair. Cansada, se reclinou e se encolheu. Na boca veio um sussurro: “Meu Deus”. E dormiu.

Ela tinha asas, asas de uma mariposa, cinzenta-escura. Sentiu frio. Pensou em algo quente. A noite era sempre fria. Viu uma luz. Voou até ela.

Um leão segurava uma luminária.

– Posso chegar perto da luz? – Perguntou a Mariposa.

– Sim, pode. Mas cuidado! Não vai mais querer sair de perto dela. Seu calor e sua luz atraem muitos. Talvez não volte mais para onde veio. – Respondeu o Leão.

– Mas aqui é tão quentinho. E essa luz é tão boa. Se eu fosse grande e forte como você eu carregava essa luz para todos os lugares, disse a Mariposa com uma pontinha de tristeza.

– Ora, essa luz não é pesada. E essa luminária é mágica. Até você pode tê-la. – Disse o Leão com carinho.

– E como faço para que essa luz tão boa seja minha? – A Mariposa perguntou enquanto voava bem perto da luz.

– É só pedir e ela será em você. Mas cuidado! Pode ser que ela mude alguma coisa em ti. – Avisou o leão.

– Como assim mudar algo em mim? – Perguntou com medo a Mariposa.

– Uma vez, um pardal perdeu uma asa assim que a luz fez parte dele! – Disse o Leão gesticulando e movendo a luminária.

– Nossa! E como foi que ele voou? – Perguntou assustada a Mariposa.

– Ele nunca mais voou. – Disse lentamente o Leão.

A Mariposa quis se afastar, mas a luz a atraía.

– Essa luz nunca se apaga? – A Mariposa perguntou, intrigada.

– Nunca! – Respondeu o Leão.

– O pardal morreu? – Perguntou a Mariposa com medo da resposta.

– Não, depois de um tempo ele voou. Mas teve que cortar a outra asa e assim pode voar. – O Leão respondeu olhando bem nos olhas da Mariposa. O Leão tinha os olhos castanhos claros, quase verdes.

– Se eu receber a luz e as minhas asas caírem… Quem vai cuidar de mim? Eu posso morrer caída no chão. Podem pisar em mim e esmagar o meu corpo. Tenho medo. – Disse a Mariposa com a voz tremula e triste.

– Seu corpo já está esmagado, Mariposa, você não tem luz, por isso sente tanto frio. – Disse sério o Leão, olhando fixo nos olhos da Mariposa, que choravam muito.

 – Moça, Mariposa! Abra os olhos! Mariposa Moça! Os olhos, abra-os!

 – Moça! Moça! – Uma mão gentil a tocava. Ela abriu os olhos, se ajeitou no banco, passou a mão no rosto, sua maquiagem estava toda borrada, o banco molhado, suas lágrimas tinham escorrido até o chão.

– Por que você está chorando? Eu ouvi o seu pranto. Qual a sua dor?

– Nada, eu sou só uma dama da noite. Não valho nada.

– Vale sim e vale muito. Toda a criatura vale para Deus. Por que você não valeria?

– A minha vida é torta, eu não sei fazer nada, não tenho e não posso ter nada.

– Quem te disse essas mentiras? Quem te fez acreditar em todas elas? Deus pode transformar tudo. Deus pode arrancar suas asas, e te fará voar sem elas. Moça olhe para mim.

Ela olhou bem em seus olhos, e eles eram verdes claros, quase castanhos. Então ela começou a chorar e chorou longamente, fechando os olhos.

Uma luz começou a clarear e clarear e então ela acordou. Estava encolhida num banco da igreja e a luz do sol batia em seu rosto. Ela se sentou, respirou fundo e as lágrimas ainda escorriam de seus olhos. Olhou nas paredes do templo e leu: “O Leão de Judá vira em seu resgate, creia”. Ouviu o barulho de portas se abrindo. Um senhor muito distinto a viu.

– Como foi que você chegou aqui tão cedo? E como foi que eu não te vi? – Esperou uma resposta, mas o rosto da Moça o fez desistir da pergunta. E ele entendeu tudo – Não importa. Você está com fome? Quer tomar um café comigo? Ela respondeu que sim, mexendo a cabeça bem lentamente. – Legal! Como você se chama?

– Mari.

– Prazer Mari, meu nome é Leo.

– Que olhos bonitos que você tem, são verdes?

– Não, são castanhos. Quase igual os seus.

Rêmulo Vaney Carrozzi

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O Baile da Graça

Otávio estava sentado no sofá se lamentando. “Por que, meu Deus, por quê?”. De cabeça baixa, enxugava algumas lágrimas. Estava na casa de uns amigos e a reunião ia começar. O interfone tocou. Era Maria. Cleuza, a dona da casa, mandou que ela subisse, deixou a porta aberta e foi para a cozinha. E o Otávio, perguntando “Por que, meu Deus, por quê?”. Maria entrou na sala, viu o Otávio e se sentou perto dele.

– Oi, me chamo Maria. E você?

– Otávio. – Disse com a voz falha, tentando esconder a tristeza e disfarçando as lágrimas.

Maria notou. Antes de se apresentarem devidamente, Cleuza chamou Maria na cozinha e cochichou algo para ela.

O interfone tocou. Era a Matilde, a Marta e o Marcos. Entraram todos. Otávio nem se levantou, cumprimentaram-se de longe.

Maria entrou na sala e colocou uma música. Um hino muito alegre. Todos começaram a dançar, exceto, claro, Otávio que, sentado, ainda se lamentava.

Matilde tinha uma cicatriz no pescoço, aproximadamente 35 pontos que ela conseguiu quando seu ex-marido tentou matá-la; mancava de uma das pernas, depois que rolou de uma escada tentando fugir do mesmo marido que era viciado e queira saber onde ela escondia o dinheiro. Matilde agora estava sozinha, mas sabia que a qualquer momento iria encontrar o grande amor da sua vida. Levantava os braços e adorava a Deus, soltando gritinhos de “Te Amo Pai! Te Amo! Te Amo!” Ela trabalhava como caixa num supermercado ali perto.

Marta tinha sido estuprada aos 12 anos por um bandido que matou seus pais bem diante de seus olhos, só para levar um colar que não valia absolutamente nada. Ficou com seu irmão numa creche do governo e lá não teve vida fácil. Apanhava todo dia e o único carinho que tinha era do irmão e da pretinha, uma cadelinha que morava com as crianças. Seu irmão se envolveu com drogas e aos 18 anos morreu baleado pela polícia. Ela ficou só nesse mundo. Era muito bonita, mas nunca havia beijado homem algum. E ela cantava alto e dava pulinhos dando glória a Deus. Erguia os braços e abraçava a Matilde e o Marcos e quem mais passasse em sua frente.

Otávio esticou o olho para seus irmãos que dançavam, mas nem levantava a cabeça.

Marcos fora dado pela mãe quando bebê, nunca conheceu seus 9 irmãos. Com 8 meses, seus pais adotivos descobriram que ele tinha uma doença incurável, rara e desconhecida. O médico explicou a doença muito pior do que ela era e seus pais adotivos o largaram numa creche por achar que ele seria quase um vegetal. Lá ficou até os treze anos, pulando de instituição em instituição até que foi adotado pelo porteiro de uma igreja e por um milagre dos céus ganhou os movimentos dos braços. Andava com dificuldade, falava todo enrolado e achava graça dele mesmo quando tentava dançar e fazer os passinhos que saíam descompassados. E ria muito enquanto Marta o ensinava a pular.

Maria observava Otávio, que chorava.

– Que foi Otávio? Por que tanto choro?

– Minha noiva me largou e roubaram meu carro.

– Nossa, “tadinho”! Mas não fica assim não. Você vai conhecer o verdadeiro amor e um carro é só um monte de lata que vale uns trocados.

– Não, eu sou um desgraçado mesmo! Só me acontece coisa ruim – Disse e deixava as lágrimas caírem.

– Otávio, você é Cristão e tem coragem de dizer isso? – Maria o olhou nos olhos, irritada, queria socá-lo até que a Graça de Jesus lhe escorresse pelos poros.

Ela contou a vida de todos que estavam ali, menos a sua própria. Otávio já estava se sentindo um idiota e piorou quando a Cleuza chegou.

– Otávio, pára com isso, você tem tudo, é um cara inteligente, apesar de, às vezes, como agora, bancar o coitadinho. A sua noiva era uma chata, nunca gostou de você. Dê graças a Deus por ela ter te largado, e se você fosse um pouco mais organizado tinha pago o seguro do carro em dia. Você sabe como foi, ou melhor, como é a vida das pessoas que estão aqui, não sabe?

– Sei, a Maria me contou. – Falou com a voz de quem acaba de levar umas palmadas.

– Pois não é nem de longe a pior. A história da Maria é de chorar de tão triste, pior do que todas as outras… E olhe para ela.

Maria dançava feliz, sorridente, dando glória a Deus e Aleluia. Otávio a olhou, olhou para a Cleuza e então chorou de verdade. Maria o olhou, foi até ele, estendeu a mão e chamou:

– Chega de choro, Otávio. Vem Louvar o Senhor Jesus.

E Otávio foi, dando Glória e Aleluias ao Senhor Nosso Deus.

Rêmulo Vaney Carrozzi

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Pedras que Gritam

Um gigantesco estrondo. O som do céu se rasgando e, num único segundo, milhões desapareceram. Numa casa onde moravam quatro, restou apenas um. Numa igreja onde havia mais de mil, dos quarenta crentes que restaram, alguns rasgaram suas vestes e outros tentaram a morte. O mundo, confuso, começou a inventar explicações. Astrônomos achavam que o surgimento de duas Supernovas, no mesmo dia e bem próximas da terra, gerou descargas inimagináveis de micromastereletroprotons de carga positiva que desmancharam algumas pessoas que aparentemente tinham em seu corpo carga negativa de micromastereletroprotons. Mas a mais aceita era: extraterrestres raptaram os seres humanos. Os cientistas não sabiam o que era. Mas os cristãos sabiam. O arrebatamento. A volta de Jesus Cristo para buscar os seus. Aqueles que não foram arrebatados temeram grandemente. Sabiam que o tempo da grande tribulação havia chegado.

Os  cristãos começaram a ser perseguidos e as religiões foram proibidas. Guerras explodiam em todos os lugares. Todos os sinais do apocalipse estavam se confirmando.

Mas alguns homens ainda criam no evangelho. A Palavra de Deus era pregada em lugares secretos. Sites eram hackeados levando a mensagem de Jesus Cristo pela rede. Novas formas de pregação surgiam: notas em anúncios, desenhos em embalagens, sussurros em lugares públicos. E novos heróis da fé apareceram, dispostos a morrer a qualquer hora, apenas com o grito “Jesus Cristo é Deus”. E eles eram mortos, dia após dia, sem julgamento, sem piedade, em escolas, no meio de avenidas, em qualquer lugar. E, quanto mais morriam, mais surgiam. Até que os governos decidiram caçá-los oficialmente e acabar de vez com a Igreja de Cristo.

Depois de anos, ainda se ouvia falar da glória de Deus e de Seu filho Jesus Cristo, mas a perseguição estava longe de terminar.

Num dia qualquer, um destacamento de soldados capturou quatro desses heróis da fé que tentavam levar bíblias a uma cidade vizinha. Eles foram amarrados e deixados ao relento, sem comida, sem bebida, sem nada, só com a sua fé. Depois de dois dias, chegou um oficial. Conversou por alguns minutos com seus homens, sacou um revolver e ficou diante dos quatro.

Olhou nos olhos do primeiro e perguntou:

–    Quem é Jesus Cristo? Apontando-lhe a arma.

–    Jesus Cristo é Deus Todo Poderoso.

Levou um tiro entre os olhos e caiu morto.

Foi até o segundo, olhou em seus olhos e apontou a arma.

–    Quem é Jesus Cristo?

–    Jesus Cristo é Deus e eu sou seu servo.

–    Você morreria por Ele agora?

–    Morreri… – E antes de acabar de falar foi baleado na cabeça.

Ficou diante do terceiro, apontando a arma e em silêncio.

–    O que você está sussurrando? Você está cantando? Perguntou se abaixando para tentar ouvir.

–    Sim. Eu louvo ao meu Deus.

–    Você tem medo da morte?

–    Não.

–    E da dor? – E atirou em sua barriga. – Parou de cantar… Engraçado, só ouço gemidos.

–    Essa dor não é nada se comparada ao que passou o meu Senhor.

–    Então eu vou te ajudar. – E deu mais dois tiros. – E agora? Dói o suficiente?

Deu um passo para o lado e ficou diante do último homem.

–    Sabe, eu estava estudando a bíblia, e não entendo vocês. Se vocês foram deixados aqui é porque o Deus de vocês não os queria. Ele abandonou vocês.

–    Não, eu é que tinha LHE dado as costas. Eu que não quis acreditar. Mas depois do arrebatamento, minha mulher, minha mãe e meus irmãos desapareceram. Eu recebia sinais todos os dias e não enxergava. Mas agora eu creio. E Ele está comigo. Aqui e agora. E vai estar sempre, até o fim dos tempos. E o tempo ainda não acabou.

–    É, mas está para acabar. Você vai morrer agora. – E apontou a arma.

–    Já era a hora! Quero abraçar o meu Senhor!

O oficial baixou a arma e disse: – Mas saiba que nós estamos acabando com vocês, os cristãos estão chegando ao fim. – E engatilhou o revólver.

–    Somos mais do que vocês imaginam. Estamos em todos os lugares. Vamos proclamar o Nome de Jesus até a Sua segunda volta. – Disse, olhando nos olhos de seu carrasco.

–    É mesmo? – Perguntou com desdém. – E se eu arrancar a sua língua? E cortar os seus braços? Como vai espalhar o nome do seu Deus?

–    Mesmo que todos os cristãos percam a voz. A Glória de Deus não será impedida. As pedras vão gritar.

–    Vamos ver! Se o seu Deus está com você, agora talvez você não morra.

Levantou-se e apontou o revolver. Atirou e a arma falhou.

–    Glória a Deus!! Gritou o homem! Paz no céu e glória nas alturas! Bendito é o Senhor!

E o oficial, furioso, bateu forte com a arma na cabeça do quarto homem.

Os quatro estavam no chão, os soldados observavam. Fez-se um denso silêncio. O oficial estava atônito. Então um vento de leve chegou e ficou mais forte. O oficial começou a ouvir um sussurro, era do homem baleado. E os outros três corpos também começaram a falar. E logo várias vozes eram ouvidas. Os soldados estavam amedrontados, procurando de onde vinha aquele som, aquelas vozes que foram aumentando, aumentando;  “Glória a Deus nas alturas! Glória a Deus Nas Alturas!”

–    De onde vem esse som? Gritou perturbado o oficial. Quem está falando isso? E tapou seus ouvidos.

–    BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR! GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS! GLÓRIA AO SENHOR DOS EXÉRCITOS!

E um soldado gritou o mais alto que pode: – São as pedras, Capitão! As pedras estão gritando!

E todos caíram de joelhos e, crendo, louvaram ao Senhor!

Rêmulo Vaney Carrozzi

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Personagem andarilho

Fosse o amor o último mistério e a primeira fronteira… Mas não, o calor do corpo é o grande marco do destino humano. A ponte que leva a salvação, ou ao desespero.

O calor da carne é o combustível da solidão. E o destino da paixão.

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Quase um Soneto

 

Tudo se foi na rude cruz.

No corpo morto e sem calor

A pedra movida traz a luz.

Nas lágrimas, o fim da dor.

 

Pregos marcam, na carne, a ferida.

Escorreu o sangue do vil espinho.

No milagre do céu vem a vida.

Tudo novo mostrado no caminho.

 

Na fé, o sobrenatural não se traduz.

A morte se retira, enfim vencida.

A palavra deixada nos conduz.

 

Em cada passo nasce uma flor.

Do homem que morreu sozinho.

E deixou a todos seu amor.

 

Rêmulo Vaney Carrozzi

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Croniquinha

Que as palavras não me fujam.

Que elas gostem da minha cabeça como os lábios de um bebê no seio da mãe. E que elas respirem pelo meu peito, brilhem pelos meus olhos e vivam pelos meus dedos.

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Por que “Pedras que gritam”

“Eu digo a vocês, respondeu Jesus; se eles se calarem, as pedras clamarão.”

(Lucas Capítulo 19 verso 40.)

Porque o Amor de Deus parte do sobrenatural, daquilo que não compreendemos, para aquilo que precisamos para viver em Cristo: a Palavra de Deus, o Pai, e Seu amor que parece loucura.

Por isso escrevo, e porque espero que meus textos sejam como “Pedras que Gritam” mesmo no silêncio. Com ContosCrônicasPoesia e Todo o resto. Com textos na maioria Cristãos. Não que os outros não sejam. São textos sobre a vida, a fantasia, a fé, Deus, a Palavra, o mundo, etc, etc, etc.

Leiam, comentem, pensem, critiquem, divulguem.

E fiquem na Paz de Deus.

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